


Nunca soube o seu nome completo real ou ao menos algum sobrenome. Todos o chamavam de Ronaldo Macarrão, o apelido certamente inspirado pela sua esqualidez. Também nunca soube do que vivia ou sobrevivia em Delmiro Gouveia naquela época.
Era um tipo meio diferente para os padrões de uma cidade até então pequena e acanhada. Aquela figura alta, magra, cabelos longos desgrenhados, e eternamente vestido com jeans surrados, às vezes com uma jaqueta. Lembrava um pouco um hippie. Apesar de que o movimento rebelde dos anos 60 há muito declinara. Enfim ele não era alguém que passasse despercebido.
E como ser despercebido sendo diferente numa cidade pequena? Era algo um tanto difícil.
Quando chegavam os finais de semana, ele era a grande atração dos Programas de Calouros, que geralmente aconteciam no Antigo Cine Pedra. A voz do animador anunciava em tom de suspense a sua entrada: Agora com vocêsssssssssss Ronyyyyyyyyyy Seixassssssssss.
E então ele adentrava ao palco imitando o seu ídolo Raul Seixas. A voz não lembrava muito o Raulzito. Mas à imitação dos gestos, trejeitos e postura de palco lembrava.
Ele então se transformava num astro. E nós aquela meninada dos anos 70 de DG, aplaudíamos o nosso ídolo e gritávamos o seu nome. Tudo isto era acompanhado pelos acordes dissonantes do Conjunto do Reginaldo. Não lembro mais o nome do conjunto. Mas sei que sempre mudava de nome.
Tudo bem que era tudo uma grande gozação. Mas o Rony Seixas se empolgava. E naquele momento ele era uma verdadeira Metamorfose Ambulante. E entre outras coisas cantava: Gitã, Medo da Chuva e Quem não tem colírio usa óculos escuros e Eu Nasci Há dez mil anos atrás.
Talvez algumas pessoas mais conservadoras façam algum tipo de censura ou encare com ares de reprovação esta homenagem ao Ronaldo Macarrão.
Poderão até dizer: mas este cara bebe demais e outras coisas. Mas quero deixar o meu registro sobre alguém que até hoje povoa minhas lembranças delmirenses. Um sujeito pacato, de voz suave, contestador e tranqüilo. Sempre o achei gente boa. E o olhava com olhos de admiração. Porque ser contestador naqueles anos de chumbo não era coisa para qualquer um. Afinal vivíamos numa ditadura e num ambiente social ainda eivado de preconceitos.
Não lembro de nenhum gesto com conotação política que ele tenha feito, naqueles tempos. Mas era ao meu ver um rebelde sem causa. E nos divertia com as suas loucuras.
A maior delas foi entrar num sarau do Clube Vicente de Menezes dentro de um caixão de defunto. A armação toda feita pelo Gilmar Cabeção. Foi algo marcante. Luzes apagadas, velas acesas e quatro sisudos carregadores entrando no salão. Um clima de suspense pairava no ar. O caixão é aberto. E levanta-se vagarosamente vestido numa mortalha o Ronaldo. Gritos histéricos por todo o salão. Foi uma farra.
Em junho de 2002 ao visitar a cidade após cinco anos de ausência. O encontrei ainda logo cedo sentado na escadaria do antigo Bar do Lula Braga. E fiz questão de ir apertar a sua mão e de apresenta-lo ao meu filho.
Eis aqui o famoso Ronaldo Macarrão ou Rony Seixas. Um artista delmirense. E ele com uma voz enrolada para àquela hora da manhã, agradeceu a deferência.
Hoje provando que é um verdadeiro mito vivo. E que realmente nasceu há dez mil anos atrás e não tenha nada que ele não saiba demais, freqüentemente é convidado a participar de eventos das novas tribos delmirenses.
As fotos mais recentes do nosso ídolo foram tiradas agora em setembro/2004, num evento ligados a esportes radicais urbanos(Skate e coisas afins) promovido pelo Eduardo Menezes.
Agora é com vocês.



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