quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

LEITURAS DELMIRENSES OU EMPRÉSTIMOS CULTURAIS.

 

LEITURAS DELMIRENSES OU EMPRÉSTIMOS CULTURAIS.

Resgatando textos da primeira versão do blog.  Este aí eu consegui recuperar com os 17 comentários gerados até então. Não fiz nenhuma alteração para evitar descaracterização.

 

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

                           LEITURAS DELMIRENSES OU EMPRÉSTIMOS CULTURAIS.




O tema de hoje versará sobre algumas leituras dos meus tempos em Delmiro Gouveia. Já comentei por aqui das tradicionais dificuldades financeiras que tornavam impeditivas adquirir livros por reembolso postal. Então para quem gostava de ler (meu caso) havia o recurso de pedir emprestado a quem tivesse algum livro que despertasse a curiosidade, que matasse a fome de leitura, que naqueles tempos não era tão seletiva. Lia-se o que caía em mãos.

E queria deixar, hoje, registrados os meus agradecimentos ao Silvano Moreira, filho do Sr. Carnaúba (químico da Agro Fabril) e que morava ali no Bom Sossego. E em cuja casa seu pai mantinha uma biblioteca de razoável tamanho.

Quando adolescente eu tinha um certo fascínio por histórias sobre a II Guerra Mundial, suas batalhas, seus principais líderes políticos, seus generais e sobre algumas tropas especiais. E foi graças aos empréstimos que o Silvano me fazia que pude aprender um pouco mais sobre este período tão conturbado da história universal.

Estas leituras ocorreram entre os anos de 1974/ 76 quando eu tinha entre 12 a 14 anos de idade.

Não lembro, naturalmente de todos os títulos, que li desta forma. Mas aqui vão alguns dos livros que "filei" da biblioteca da Sr. Carnaúba:

Hitler
Mussolini
Himmler
Rommel (a raposa do deserto)
Zhukov
Monte Cassino ( batalha de nações)
Waffen SS (as tropas da morte)
A Batalha de Guadacanal
Pearl Harbor

Há anos não vejo o Silvano. Ele mora(va) aqui em Recife e enfrentou alguns problemas de saúde. Espero que tenha superado tudo.

Só para espichar um pouco mais o post sobre leituras delmirenses obtidas da mesma forma quero registrar ainda duas lembranças de duas pessoas que de vez em quando aparecem por aqui.

O Bráulio (filho de seu Vírgilio dos Correios) emprestou-me um dos livros mais fascinantes que li naqueles tempos "Histórias, Desastres e Catástrofes Que Comoveram o Mundo". Este livro apresentava uma coletânea de fatos reais. E foi através dele que li sobre os naufrágios do Titanic, do Andréia Dória(navio italiano de passageiro) do Baependi(navio brasileiro afundado na II Guerra). Nele também havia a história da maior explosão registrada até então pela história(vulcão de Krakatoa na Ilha de Java), tinha histórias sobre a conquista dos pólos terrestres, sobre a destruição de Pompéia, falava sobre campos de concentração.

Enfim eram dezenas de histórias sobre os mais diversos temas. Li e reli diversas vezes este livro. E até hoje, passados mais de 30 anos, ainda consigo reter de forma vaga na memória alguns lampejos destas leituras.

Será que o Bráulio ainda lembrava deste livro? Acho que não.

E você nos seus tempos delmirenses lembra de alguma coisa que tenha lido também desta forma? Lembrava ainda do Sr.Carnaúba? Então registra por aqui suas memórias delmirenses.





COMENTÁRIOS DA ÉPOCA.

 

César, eu não esqueci o texto prometido, porém infelizmente meu HD travou e ainda não consegui recuperar os textos que estava escrevendo. Como bom brasileiro esqueci de fazer back-up. Estou operando com um HD reserva. Caso não recupere os textos escreverei tudo novamente.

Paulo da Cruz | 26-01-2007 20:51:23

(continuação)... Lembro que ví um dia desses no telejornal,a iniciativa de um prefeito de vinte e poucos anos no sertão da Paraíba que sem recursos, sem apoio político, começou plantando algarobas, fazendo cisternas baratíssimas, e represando um riacho que passa ao lado da cidade. Com o represamento vieram os peixes, a fabricação de tijolos, a criação de bodes e o povo descobriu que era preciso apenas começar. Todos os dirigentes políticos de então não enxergaram que a realidade deles não estava na fantasia televisiva do Sudeste e sim bem aos seus pés. Algumas pessoas que viviam sub-empregadas mundo afora voltaram p/casa e começaram a" viver". O Prefeito aproveitou a fabricação de tijolos da beira do açude e começou a fazer duas escolas. O Povo Agradece.

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 19-01-2007 09:30:41

Ainda a respeito, Sei que o BNDS, BANCO DO NORDESTE, FINAME, BANCO DO BRASIL etc. etc., dispõem de linhas de crédito p/impulsionar negócios existentes c/juros aceitáveis e p/os já existentes, alavancar os sonhos de quem tem visão. Sei, todos nós sabemos que alguém precisa dar o primeiro passo e começar a produzir Feijão, Milho, Farinha, Melancia, Abóboras etc,. rebanhos de ovinos e caprinos, principalmente os caprinos se adaptam muito bem às condições de clima da região. Lula Cabeleira é por exemplo um grande criador de avestruz, talvez o maior do nordeste. Sabe-se que o aproveitamente é total e com mercado ávido por plumas, carne, unhas, ossos etc. etc. Pena que não tenho nem um palmo de terra por lá más se tivesse começaria produzindo qualquer coisa que saísse da terra que não dependesse apenas das chuvas. quando vejo aqueles sertanejos figurantes das lamúrias da aridez do sertão bravo, trampolins eleitoreiros p/ políticos sem vergonhas e viciados, ( continua )

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 19-01-2007 09:18:59

É Verdade, Prof. Paulo. Sempre achei que Delmiro Gouveia podia dar alguma coisa além dos comentários saudosistas a respeito de um homem de visão que distribuiu luz elétrica e sonhos de progresso enquanto grande parte do país ainda se iluminava a lampiões de querosene. A mim surpreendeu o fato de num dado momento a cidade teve o marasmo administrativo quebrado por um homem do povo que queria dar algo diferente às gerações futuras de D.G. . O pontapé inicial foi dado por Lula Cabeleira porém no meio da partida alguém soou um apito e o jogo parou. Até que alguém questione as razões desse acidente de percurso, Delmirenses atônitos vão lembrar com saudade de uma era mágica de Progresso alavancado pelo simples fato de querer mudar p/melhor. Imaginem que com o represamento do velho chico em Xingó, grandes latifundios até agora existentes, poderiam ter dado impulso ao agro-negócio más o que se ver é uma espera interminável que milagres sejam despejados do céu junto com as trovoadas de verão.

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 18-01-2007 16:20:07

Local de pouso para OVNIs eu não encontrei em DG, mas, pude ver agora no final de 2006 uma estação rodoviária às moscas e pontos de parada de ônibus urbano em uma cidade onde não existe ainda tal serviço. Como uma cidade ávida de progresso, DG avançou com a infraestrutura, porém algo errado deve ter acontecido e em empreendedores locais ainda não souberam capitalizar as oportunidades. Creio que o espírito do fundador precisa baixar em algum terreiro e incorporar-se em alguém da terra para que as coisas aconteçam com maior rapidez. Em breve um post com imagens, ao vivo, do ponto de ônibus que inclusive se tornou notícia nos telejornais nacionais.

Paulo da Cruz | 18-01-2007 13:16:19

Se o aeroporto, o heliporto, a estação rodoviária e a estação ferroviária estiverem congestionados e ainda assim faltar jegues, alugue um OVNI. Programe no navegador por satélite o destino: DELMIRO GOUVEIA e aproveite.

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 16-01-2007 09:31:06

Se o aeroporto, o heliporto,a Rodoviária, a Estação ferroviária estiverem congestionados e ainda na falta de jegues p/ o passeio, pode-se ir confortavelmente de OVNI. Ora P. ... ... ... .

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 16-01-2007 09:04:41

Pode Tambem chegar de jegue.

De muito longe | 15-01-2007 16:56:54

Olá Isadora. Para se chegar em Delmiro é muito fácil: Basta comprar um bom facão e adentrar nas matar fazendo picadas entre os mandacarus, algarobas e sempre se desviando das balas de algum cangaceiro perdido. Caso consigas chagar viva à maravilhosa Delmiro, terás vivido uma experiência emocionante.

Ricardo Menezes | Email | 15-01-2007 15:55:11

Estou precisando muito da ajuda de vocês! Queria saber como se faz pra chegar em Delmiro...Se existe aeroporto,heliporto,rodoviária,ferrovia... Por favor me ajudem! Beijos!

Isadora | Email | Homepage | 15-01-2007 13:16:38

Bom 2007 para todos!! Este assunto é por demais intrigante para mim. Pobre, desprovido de bibliotecas públicas, mesmo assim eu era dado 'a leitura. Filava livros do Paulo da Cruz, do Eraldo Vilar e tb, tive a grata felicidade de obter por empréstimo algumas obras da querida e saudosa professora D. Natercia Serpa. Hoje, com toda facilidade existente, os nossos jovens não querem saber de leitura.

abrahão | Email | 12-01-2007 13:34:24

Além de Cultura, Visitar o Silvano era também diversão. Eu, Murilo, Edson Borracha, éramos frequentadores assíduos da Casa do Silvano onde aproveitavamos a oportunidade p/ dar uns mergulhos num açude próximo. Num desses mergulhos eu dei um rasante no fundo, raspei a cara numa pedra, arranhei o nariz que devido ao Sol e os ferimentos, ficou Vermelho e dolorido. Durante um bom tempo, amarguei o apelido de Nariz de Pimentão.

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 11-01-2007 09:53:07

Paulo desta coleção havia outros títulos que não citei no post. Creio que o Sr. Carnaúba tinha todos ou quase todos. Lembrei-me outros: Guderian, Montgmory,Goering, Luftwaffe, Zero(os caças da morte)...

César | 10-01-2007 17:11:40

Eu não tenho certeza se eles livros já estavam sendo publicados quando eu residi em DG. Tenho uma vaga lembrança e acredito que sim. São muito bons. Tenho alguns em minha biblioteca, perdidos em algum canto de estante. Um deles é "Waffen SS", citado aqui no post. Adquiri esses livros em um relançamento posterior, nas bancas de revistas. Um livro que lembro bastante é "História Secreta da Segunda Guerra", publicação da Editora Seleções do Reader´s Digest. Quem tinha um exemplar era o Agenor, vizinho de Edmo (Garoto). Agenor tinha muito ciúme desse livro mas eu consegui que ele me emprestasse. O conteúdo era uma coletânea de artigos publicados anteriormente na revista "Seleções" e refletia a visão americana do conflito, no entanto era um livro interessante e com uma linguagem de fácil entendimento. Naquela época adquirir cultura não era fácil. Só lembro de duas bibliotecas de peso: as de Dr. Antenor Serpa e Dr. Ulisses Luna. A última, por sinal, eu só vi de relance uma vez. Na primeira bebi muita informação.

Paulo da Cruz | 10-01-2007 16:11:26

Esqueci "propositalmente" de falar que quando das visitas a biblioteca do Sr. Carnaúba eu geralmente ia montado na garupa da bicicleta do Danúbio ou de seu irmão Murilo. O pequeno microscópio que ficava na estante despertava a curiosidade. Já que pelo que lembre nunca tivemos o prazer de utilizar algum nas aulas de ciência do GVM. Quer dizer o Braulio ainda lembrava deste livro?

César | Homepage | 10-01-2007 15:42:25

Cesar, Não poderia esquecer deste livro. Também ainda lembro da maior parte das histórias que nele li. Visitei a biblioteca do sr. Carnaúba, só que a convite do seu filho Rodolfo que era meu colega de GVM. Era do irmão mais velho de Rodolfo o primeiro LP de Chico Buarque que ouvi.

Braulio | 10-01-2007 15:08:23

Ir até a casa do Sr. carnaúba era muito bom mesmo.Por encontrar sempre as revistas O CRUZEIRO, REALIDADE, MANCHETE etc. e ficar atualizado com os acontecimentos do mundo e bizurar um pouco dos livros daquela biblioteca sortida que ele tinha. estudei com o Silvano em 75 ou 76 e lembro bem daquele bom colega, bom aluno e bom ciclista também. Na sua casa tinha um Microscópio que sempre que íamos até lá, arrumávamos folhas, formigas e mosquitos p/ pesquisas. Mando daqui um grande abraço p/ele.

DANUBIO DE OLIVEIRA | Email | 10-01-2007 12:42:06

 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

A QUEROZINA

 

A QUEROZINA

Texto postado originalmente na primeira versão do blog em 01/dezembro/2004


Nos anos 70 na cidade de Delmiro Gouveia tinha apenas uma banca de revista. E assim mesmo era uma banca improvisada. Ficava dentro da Loja Querozina de propriedade do Sr. Adão Queiroz. 



Na realidade a Querozina era uma loja de bebidas. Principalmente bebidas de fabricação própria. Eram elaboradas em grandes tachos de madeira. Isto era feito nos fundos da loja, dando ali para o Beco do Progresso. O cheiro de jurubeba queimada que levantava, quando ferviam aquelas misturas era insuportável. A cajuína, uma espécie de refrigerante local, era palatável.

A banca de revistas resumia-se a um mostruário com alguns exemplares. Não era uma banca sortida. Não havia tantos leitores assim na cidade. Ou os que tinham um poder aquisitivo maior, eram assinantes. As revistas geralmente chegavam com certo atraso. Já que eram trazidas de Paulo Afonso. Lembro bem que a Revista Veja chegava para os assinantes na segunda-feira. E na banca na quinta-feira.

O Balconista da Querozina era um rapaz chamado Cícero. Era um cara bem legal. E costumava guardar o meu exemplar. E como eu era um cliente habitual. Ele ainda deixava-me folhear outras revistas, ali mesmo no balcão

Foi neste pequeno espaço que comecei  aguçar um pouco a minha juvenil curiosidade por leitura. E isto era feito geralmente comprando a Revista Manchete. Eu achava o máximo àquelas fotos imensas e pouco texto. Durante uns três anos eu comprei todas Manchetes. Quando saí de DG, minha mãe se desfez de todas.

Hoje em dia ao passar em alguns sebos recifenses, por vezes, revejo alguns dos exemplares que um dia eu também tive. Como este aí da foto abaixo: Eleição do Papa João Paulo. Um curto papado. 33 dias apenas. Dá uma imensa saudade.

E aí quais as suas primeiras leituras delmirenses? Conte por aqui.



quarta-feira, 9 de julho de 2025

A “Revolução” de 1964 na visão de um garoto delmirense

 

Texto de Eraldo Vilar e publicado originalmente em 03/12/2005, nas primeiras versões do blog.


A “Revolução” de 1964 na visão de um garoto delmirense

Hoje temos o excepcional e divertido texto do nosso colaborador Eraldo Vilar narrando o pantim (mais uma palavra do vocabulário delmirense) feito por alguns milicos nos primeiros dias do Golpe Militar de 1964.

Qual interesse estratégico tinha a nossa cidade no contexto nacional naqueles dias é um mistério para os historiadores? Será que o famoso Ouro de Moscou financiava algum aparelho comunista delmirense? Será que na pacata DG havia comedores de criancinhas? 


A  “Revolução” de 1964 na visão de um garoto delmirense
(Texto na íntegra do Eraldo Vilar) 


 

A famosa “revolução”, promovida pelos militares em 1964, marcou minha geração, pois seus efeitos foram prolongados, sendo o pano de fundo de parte da minha infância , adolescência e parte da minha vida adulta.

Embora tenha ainda comigo, lembranças nada boas deste período de “chumbo” da vida brasileira, lembranças estas associadas a colegas e professores da escola de geologia, na Bahia, perseguidos e presos (alguns torturados), guardo, entretanto, uma recordação engraçada deste período.

Tinha eu 10 anos de idade quando a “revolução” eclodiu, residia ainda em Delmiro e tomei conhecimento dela em um sábado, dia da famosa feira, que acontecia na cidade.

Estava, pela manhã, na loja de meu pai, na rua do Progresso, ajudando nas vendas que aos sábados eram intensas e exigiam reforço na equipe de vendedores, quando ouvimos grande alarido na rua. Pedi ao meu velho para ir ver o que estava acontecendo e dirigi-me ao início da feira, próximo ao açougue, onde fiscais da prefeitura normalmente colocavam cavaletes para impedir a passagem de veículos no meio da feira.

Lá chegando, deparei-me com aqueles veículos assustadores, enormes, verdes (tudo é grande demais quando somos pequenos, não é? rs) parados no meio da feira. Tratava-se de dois caminhões do exército , vindo do quartel de Paulo Afonso: um, com capota e bancos, estava cheio de soldados armados com fuzis com baionetas travadas, o outro tinha apenas carroceria, sem capota.

As fisionomias dos soldados (todos jovens, alguns delmirenses) estavam rígidas, sérias e assustavam. Os soldados desceram do caminhão e sob as ordens de alguns sargentos, começaram a se distribuir em pequenos grupos pelas ruas do centro, com ar ameaçador que fazia os pobres feirantes permanecerem em silêncio, assustados (eu comecei a pensar que voltar para a segura companhia de meu pai seria uma boa idéia..rs).

Na carroceria do caminhão sem capota, cujas grades laterais foram abaixadas, os soldados colocaram uma metralhadora de pé, de grosso calibre , daquelas que se vê filmes de guerra. Um enorme pente de munição foi colocada na abertura lateral da metralhadora e um soldado deitou-se em posição de tiro, apontando a mesma para os lados da feira. Esta ação fez o povaréu recuar e eu correr..rs. Mas, era apenas o soldado tomando posição. Aliás, uma posição estática mesmo!. O bravo combatente, imbuído de dever patriótico (rs) nem batia as pestanas. Sua expressão era a seguinte: olhar raivoso de águia, fixo, lábios cerrados, parecia uma estátua.

Pois é....e tome-lhe sol delmirense no capacete. Passado um tempo, o medo foi passando, e um monte de matuto (eu no meio) foi se acercando do caminhão, maravilhados com aquela cena, aquela arma gigantesca e ameaçadora.
A turma foi descontraindo, puxando seus cigarrinhos de palha brava, e diálogos do tipo eu pude ouvir:
-Pois é, cumpadi...que espingarda da peste, né? ¿
-É, cumpadi..ja pensou o estrago que a gente ia fazer nos mocós cum ela?  
-Eita cumpadi..ia esbagaçar, homi, isto é prá matá onça!¿....
-Mas que sordado bravo, né?...num mexe nem os beiços!  
-Pois é...será que ele guenta o sol muito tempo, cumpadi?
-Sei não, cumpadi..o coitadim vai derretê dibaixo do capacete...

E por aí iam as conversas, ao redor do caminhão.....
Hoje lembro destas coisas ... que coisa mais surrealista a “revolução de 64”
na nossa Macondo!...rs....queriam achar algum comunista lá?? Rsss

Ps: pelo sim pelo não, enterrei meu livros de capa vermelha no dia seguinte...rss

Ps: não tenho certeza porque não fiquei o tempo todo, mas eu soube que o soldadinho desmaiou de insolação....rss...alguém lembra e confirma?

REMINISCÊNCIAS DA RUA DO ABC

 

Texto postado originalmente em 01 de setembro de 2006, na primeira versão do blog. Na época gerou dezenas de comentários. Não tem mais como recuperá-los. Uma pena. 


Hoje o texto é longo. Mas vale a pena ler até o fim. O nosso colaborador teve um trabalho imenso em puxar tanto por sua memória fenomenal. Enfim temos um completo mapeamento histórico das origens da Rua do ABC. Do seu povo. Da sua gente. Dos seus costumes e dos acontecimentos que marcaram de forma indelével a vida de um garoto. E que hoje presta a sua homenagem a tantos nomes do passado e alguns ainda bem presentes no cotidiano da cidade de Delmiro Gouveia.(a Macondo sertaneja)


REMINISCÊNCIAS DA RUA DO ABC
Texto de Paulo da Cruz.





Não sei se esse texto vai interessar a quem não morou na Rua do ABC. Talvez não interesse nem aos que por lá residiram, cresceram e fizeram amizades de infância.

DG tem algumas ruas que eram muito conhecidas, talvez por estarem localizadas em locais estratégicos. Posso citar algumas delas e creio que hoje deve ter muito mais ruas que servem como referência. Quando residi em DG as ruas que eu ouvia falar mais os seus nomes eram: ABC (eu morava na rua continuação), Carlos Lacerda (depois mudou o nome para Castelo Branco), Delmiro Gouveia, 7 de Setembro, 13 de Maio e Freitas Cavalcante. Provavelmente, dado que eu já era adolescente, tinha alguma garota atraindo a minha atenção ou de algum amigo meu. A Rua do ABC, objeto deste texto, tinha quando eu por lá cheguei, em 1956, tinha limites já definidos.

A rua começa junto ao desvio onde o trem fazia manobra (hoje no local tem um bar de rua, quase em frente ao Banco do Brasil) e ia até uma cerca de arame farpado junto a vários pés de uma planta conhecida como labirinto. Por sinal essa planta tinha uma seiva leitosa que diziam que cegava. Talvez mais uma lenda urbana. No início da Rua do ABC ficavam a residência do Dr. Ulisses Luna e a Mercearia de Condillac (Conde). A rua quebrava, no seu lado direito, entre as casas do Seu Zeca Norberto e Zé Elias. O beco que essa quebra provocava me deixa uma dúvida quanto ao seu nome: é beco de Zé Elias/Zeca Norberto ou de Luiz Xavier. Esse beco por sinal tem muitas histórias. Não lembro que ele tivesse iluminação própria, acho que pegava os resquícios da luminosidade das ruas que se comunicavam através dele.

Por esse beco regressavam, às suas casas, as garotas que estudavam no ginásio e residiam na Rua do ABC. Eram as famosas meninas da Rua do ABC. Não sei porque, mas elas só regressavam em bando. Acho que tinham medo de alguma alma penada que já estivesse assinando o ponto antes da meia-noite. Mais adiante, agora pelo lado esquerdo, tinha o Beco de Zé Panta. Zé Panta Godoy, segundo contam, foi quem matou Maria Bonita, ou Lampião, não sei ao certo. Esse beco levava à Rua do Correio. Essa rua evidentemente tem nome. Eu não lembro. Ouvia as pessoas se referirem a ela assim.

Continuando a subir a rua chegava-se a dois becos um após a casa do Seu Agenor Norberto (depois foi o Hotel de Dona DasGraças), pelo lado direito, iniciando a Rua da Travessa, e o outro, pelo lado esquerdo, que dava para o curral ou matadouro municipal. Era matadouro mesmo. Não sei como a população conseguia consumir carne e não se contaminar, dadas as péssimas condições de higiene do local. Aliás, não existia higiene nenhuma. Só para ilustrar após o famoso curral tinha dois cercados, o de Seu Agenor e o de Jaime. O de Jaime tinha uma pequena represa onde alguns tomavam banho. Lembro que lá tinha um barro muito bom para fazer balas para usar com o estilingue (era chamada também de peteca).

Voltando a Rua do ABC. O beco ficava entre as casas de Pepeda (alguém lembra dele) e de Dona Leobina (uma senhora residente no Sinimbu que costumava alugar essa casa). Vizinha a casa de Pepeda ficava a Mercearia de Dona Rita, esposa do Seu Zé Leite, já citado aqui no blog quando foi contada a história da Botija. Essa era a parte nobre da Rua do ABC, onde moravam as pessoas de maior poder aquisitivo.

Vou tentar relembrar alguns moradores ilustres e com certeza vou cometer injustiça esquecendo alguns. Dr. Ulisses Luna, pai de Delmiro e Solange (médico, fazendeiro e ex-prefeito), Dona Maria Clementina (viúva do Cel Ulisses, o homem que deu guarida a Delmiro Gouveia quando ele chegou ao sertão das Alagoas), Seu Enoque, pai de Nelson, Elias (agente do IBGE), Maninho (proprietário do bar famoso), Mireta (irmã de Maninho), Dona Julia Santana (costureira), Seu Lino, pai de Zé de Lino (fazendeiro), Seu ... Santana (artesão do ramo de couro), Seu Antônio Nezinho, avô de Aline (comerciante), Seu Zé Panta, pai de Cilinho (ramo de transportes), Seu Antônio Exalto (comerciante), Lula Braga, pai de Carlinhos (alfaiate e proprietário de bar), Seu Joãozinho de Maroca, pai de Tôtô e vários outros colegas (ramo de transportes), Seu Agenor Norberto, pai de Kleber (funcionário destacado do fábrica), Seu Zé Leite, avô de Toinho de Cacilda (comerciante), Jaime (criador de gado de leite), Benedito Freire, pai de Gedalvo, Paulo, Rui e tantos outros (comerciante e ex-vereador), Seu Heleno, pai de Tom Mix e vários outros (dono de marcenaria), Seu Zé Alves, pai de Eraldo e Gilda (comerciante), Seu José Lima (fazendeiro - antes a casa foi de propriedade do Seu Gaudêncio Lisboa, ex-prefeito), Seu João Liberato (comerciante), Seu Davizinho, pai de Luiz (comerciante), Eurico, pai de Euriquinho e Zezinho (protético), João Enfermeiro, pai de Paulo, Zé Hilton, João Fernando e muitos outros (protético), Seu Zé Craibeiro, pai de Givaldo e Assis (comerciante), Zé Elias, pai de Paulo (barbeiro), Zé Norberto, pai de Lucy, Seu Manoel Vigário, pai de Maciel (comerciante no Pariconha, acho que um de seus filhos é o atual prefeito de lá), Seu George Lisboa, pai de Bezo, Osmar e tantos outros (funcionário da rede ferroviária) e Condillac, o Seu Conde, pai de Linda.

Essas pessoas ajudaram a fazer a história de DG, durante várias décadas, como as pessoas residentes em outras ruas também o fizeram. Elas poderiam ser nominadas por outros freqüentadores do blog e que residiram nessas ruas. Acho que é uma maneira de relembrarmos o passado. Todas essas pessoas que eu consegui citar tiveram, em algum momento, direta ou indiretamente, importância na minha vida, seja comerciando, transportando ou simplesmente me dando atenção e conversando comigo.

Até hoje eu não sei a origem do nome da rua, talvez devido ao número de professoras que lá residiram e escolas particulares que foram por lá sediadas.

Eu morei na continuação da Rua do ABC, que depois passou a ser independente da Rua da Independência (o novo nome da Rua do ABC) com o nome de Rua Pe. Anchieta, logo após o beco, vizinho a casa de Dona Leobina. Hoje o beco deu lugar a uma escola e a casa onde residiu Pepeda foi demolida e virou beco.

Na rua a criançada cresceu jogando bola, castanha de caju, bolinha de gude, pião, peteca, empinando papagaio, pegando borboletas (lembra disso Eraldo), passarinhando no mato (atrás do Cemitério, ou no cercado de Jaime) e fazendo corridas de caminhão construídos com restos de madeira obtidos na marcenaria de Seu Cícero de Duca que ficava na Rua da Travessa. O interessante em Seu Cícero, pai de uma numerosa prole, era o sistema de assovio que ele usava para chamar cada um dos seus filhos. Cada um tinha um assovio próprio.

Um fato interessante da Rua do ABC. Tôtô até já fez um comentário a respeito. Foi a primeira rua a ter televisão em DG. Um determinado dia, em uma das casas que ficavam entre a casa de Tôtô e a casa de Zé Panta chegou um novo morador. Ele era proprietário de um caminhão que fazia viagens pra São Paulo e resolveu comprar um aparelho de televisão. Comprou e instalou uma antena que devia ter mais de 15 metros de altura e direcionou para onde ele achava que era Recife. Com a tecnologia daquela época a única coisa possível de se pegar era chuvisco. A CHESF ainda não tinha instalado as torres repetidoras que depois fariam o link entre Recife e Paulo Afonso. Mesmo assim a meninada ficava na janela olhando aqueles chuviscos e imaginando ver alguma imagem. A Rua do ABC (prefiro chamá-la assim), era dividida por um canteiro onde foram plantados pés de algaroba e castanhola. Entre a casa de Dr. Ulisses e de Seu George Lisboa tinha dois ou três pés de ficus (chamávamos de figo), ainda jovens se comparados aos frondosos que ficavam em frente à Casa de Saúde. Nas noites quentes de verão ficávamos aproveitando uma brisa e até aparecia vez por outra um violão para despertar algum cantor adormecido. Ao que me consta Kleber era o único na rua que tinha um violão, além de Lula Braga é claro, porém esse era um instrumento semi-profissional, marca Del Vecchio. Carlinhos as vezes dava uma fugida com ele e aí tirávamos uma palhinha.

Agora lembrei, também morou na Rua do ABC o Seu Antonio Panta, pai de Nildo Pantaleão (acho que é tio-avô de Aline). Nildo passou um tempo em São Paulo e voltou cantor. Lembro de algumas serestas que ele e Kleber fizeram.

Enfim essas são algumas das lembranças que eu tenho. Gostaria de encontrar por aqui relatos de pessoas que residiram em outras ruas. Não precisa ser texto literário (esse não é). Apenas conversa pra ser jogada fora, do tipo: você lembra de fulano, que morou na rua tal e era pai de sicrano? Tens notícias desse povo? Sabe o que aconteceu com eles?



Nesta esquina, nos anos 60/70, ficava a sorveteria do seu Conde(janeiro 2010)

Rua do ABC nos anos 80

 
Rua do ABC anos 80. Ainda havia um canteiro central.

Nesta outra esquina e em frente a sorveteria do seu Conde ficava a residência e consultório do famoso Dr. Ulisses Luna. (janeiro de 2010)